Airbnb, Fundos e Investidores Estrangeiros Estão Transformando Moradia em Ativo e Expulsando Quem Vive nas Cidades

Em Goiânia, um apartamento de 50 m² custa R$ 424 mil pelo FipeZAP quem recebe R$ 5 mil e destinar tudo à compra levaria mais de sete anos para pagá-lo, sem juros. Regular o Airbnb é fazer política habitacional.

Os eleitos em 2026 para o Executivo e o Legislativo não poderão adiar uma pergunta: quem vai conseguir morar nas cidades brasileiras? A promessa inicial das plataformas de locação de curta duração era simples compartilhar um quarto ocioso para obter renda complementar. Com a escala e a entrada de empresas, o modelo mudou. Apartamentos inteiros viram ativos; administradoras acumulam dezenas de unidades; algoritmos precificam imóveis conforme a demanda turística e grandes eventos. Cada unidade retirada do aluguel permanente é uma moradia a menos. Em áreas valorizadas, a redução da oferta pressiona os preços, altera a vida cotidiana e expulsa moradores antigos.
A airbnbização transforma o morador em variável de rentabilidade
O problema não é quem aluga ocasionalmente o próprio quarto ou a própria residência. É converter imóveis residenciais em hospedagem comercial permanente, sobretudo quando um operador controla várias unidades. As plataformas combinam dados, preços e gestão em larga escala, e a opacidade dos critérios de visibilidade e formação de preços dificulta a fiscalização pública. O efeito vai além do mercado: ao transformar acolhimento e compartilhamento em transação calculada por avaliação e lucro, as plataformas também corroem relações sociais que dão sentido à vida urbana.
Colonialismo imobiliário: quem extrai renda não habita nem participa da cidade
É nesse ponto que se pode falar em colonialismo imobiliário. Agentes com mais patrimônio, crédito e informação investidores estrangeiros, fundos e empresas transnacionais apropriam-se de localizações, infraestruturas e paisagens produzidas coletivamente para extrair renda sem necessariamente habitar ou participar da vida cotidiana. Quem vive e trabalha nesses lugares perde poder de decidir onde morar; o território se torna ativo de interesses externos. A velha disputa entre cidade como condição de reprodução da vida e cidade como suporte à acumulação de capital não desapareceu ela foi acelerada pelos algoritmos.
Em Goiânia, 88% da população está abaixo da faixa de isenção do IR
Os dados locais traduzem essa abstração em números concretos. O Censo 2022 indica que entre 88,6% e 95,2% da população de Goiás estava abaixo do limite de isenção de R$ 5 mil no Imposto de Renda, dependendo da faixa considerada. Em Goiânia, a proporção variava de 76,5% a 88,3%. Em agosto de 2026, o preço médio anunciado na capital chegou a R$ 8.482/m² segundo o FipeZAP.
Um apartamento de 50 m² custaria cerca de R$ 424 mil mais de sete anos de renda de quem recebe R$ 5 mil, sem juros e sem qualquer outra despesa. A isenção de IR é um avanço, mas não corrige um mercado em que a maioria busca a primeira moradia enquanto uma minoria amplia o patrimônio com o segundo, o terceiro ou dezenas de imóveis.
Regular não é proibir: é diferenciar compartilhamento de exploração empresarial
A regulação necessária passa por medidas concretas: cadastrar imóveis e responsáveis; exigir dados verificáveis e públicos; limitar a locação de curta duração de unidades inteiras em áreas sob pressão habitacional; garantir isonomia tributária com hotéis e imobiliárias; e destinar parte da arrecadação à habitação social e ao aluguel permanente. Aos eleitos em 2026 caberá definir quantos imóveis um mesmo anfitrião poderá explorar e como proteger a moradia permanente. A tecnologia pode gerar renda, mas não pode transformar o direito de morar em sobra de um mercado especulativo. Se a cidade é de todos, os novos governos devem impedir que ela seja colocada em leilão, uma unidade de cada vez.




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